Hoje foi um dia atípico, o melhor dia da semana. Consegui vender dez exemplares a cinco reais. Cinqüenta reais: apenas notas de um real. cinqüenta notas que deixam minha carteira fuleira com uma protuberância que ela não via há tempos. cinqüenta notas que se avolumavam entre meus dedos, dando a falsa impressão de opulência. A história é sempre a mesma. Apesar de ter nascido, criado e nunca ter morado fora da capital; a história é sempre a mesma. Geralmente procuro bares e lanchonetes freqüentadas por uma corja de estudantes de faculdades que escutam rap em seus carros, leram Karl Marx e acham que são “celebridades”, e um bando de idiotas metidos a intelectuais, assinantes da revista da CULT, que usam a sorte do dia do horóscopo. Scaneio as mesas em busca de garotas brancas e negras de pele boa com aspecto de “descolada”, ou hippie-chic”, ou qualquer imbecil com feições amorfas e sem alma e repito a mesma história: “porra cara, desculpa incomodar vocês. Meu nome é Juan Leon e eu vim de Serrinha pra visitar minha namorada grávida de oito meses. Como os pais dela não me aceitam, eu durmo em hotéis, etc. Mas, resumindo, hoje de tarde fui assaltado e preciso de dinheiro para comprar minha passagem de volta pra casa e como repudio a mendicância, eu vendo para vocês, um livrinho que eu mesmo escrevi e blá, blá, blá. Mostro a capa do meu livro pra eles e geralmente eles perguntam “pô bródê, foi você que escreveu?” e respondo prolongando a história: “foi mano”! Eu trouxe estas amostras, para distribuir em algumas editoras, mas nem deu, porque eu fui roubado e não tenho um real pro buzu. Nesse momento, sempre tem uma vadia estúpida que pergunta: “você é escritor”, eu penso: “que idiota. Acabei de responder que fui eu quem escreveu essa merda e ela me pergunta se sou escritor”, mas apenas respondo: “é o que dizem”. Se o cara não for comprar, ele começa com um papinho de que aprecia toda forma de expressão artística e toda aquela conversinha furada. Quem vai comprar, puxa a carteira e diz: “pô brother, quanto?”. E hoje foi assim. Dei sorte, pois vendi dez livrinhos, logo na primeira abordagem. Uma das garotas comprou dois livrinhos, “só pra me ajudar”. Conheço uma gráfica no centro, que imprime meus livros há 1,05 centavos a unidade. Os donos são gente boa. Um casal. A mulher diz que tenho talento e que é minha fã. O cara diz que exagero nos palavrões e tenho péssima acentuação. Eles cuidam da minha mochila enquanto pago 1.50, pra tomar um banho de quinze minutos, num chuveiro gelado, atrás de um posto de gasolina. No começo da tarde, conheci um senhor que trabalhava de madrugada, fazendo manutenção nos trilhos do metro. Ele não comprou um livrinho, mas me pagou uma coca e um x-sala, pois “eu parecia com seu filho”. O filho dele também tinha um ar de nobreza, mais só vivia junto ao lixo. Durante as tardes, arrecado muito pouco, por culpa de minha aparência: “um garoto forte, bonito, podia arrumar um emprego facinho”. Também porque prezo minha higiene acima de tudo. Quando se vive nas ruas, ou você se torna um andarilho sem nome, ou um peregrino viajante. – eu vivia como peregrino viajante. Após meu x-salada caprichado, fui ate uma banca pra ler a primeira página de todos os jornais. Andei muito. Descolei oito reais, mas odeio pedir dinheiro a transeuntes. Prefiro vender meus livrinhos a noite. É mais gratificante e às vezes bebo cerveja grátis. Parei na sombra de uma praça para descansar o corpo. Retirei a mochila e olhei para o nada, decidindo onde eu venderia os livros à noite. Comprei uma caneta nova e um caderninho de cem folhas de um ambulante ali mesmo na praça. Tive uma idéia estúpida e comecei a escrever utilizando a mochila sobre minha coxa como escrivaninha. Uma prostituta se aproximou, ficou me olhando com desdém e depois de algum tempo disse: “ô, chupetinha?! Dez contos”, respondi: “engraçado, eu ia te perguntar a mesma coisa”. Ela fez uma cara de cu que dizia “vai tomar no cu” e saiu andando. Fiquei admirado pelo poder de tração nas coxas da garota e contemplei sua abrangência traseira ir à direção as suas colegas de trabalho em plena três da tarde. Continuei tentando escrever. Escrevi: “noctifloras vadias sob a luz do plenilúnio, Prazeres inconstantes causadores de infortúnio” E travei. Rabisquei três páginas. Desenhei um urso panda fumando um baseado e nada de idéias para escrever (e meu talento pra desenhista é nulo). Morigerado dentre ambulantes e primas. Pensei em imprimir mais dez livrinhos. Já havia comido e tinha seis reais no bolso. Descolava mais quatro e com o troco comia um dog no centro, mas melhor deixar para amanhã. Ainda tenho oito livrinhos na mochila. A puta voltou e vi que ela era realmente linda (além de gostosa pra caralho).
Ela disse: “o que você tanto escreve?”.
Eu: “to tentando fazer uma poesia urbana, mas travei”, “posso ver”, “ta”. Ela leu umas duas linhas e comentou: “hum, lua cheia”;
Eu: “o que?”, “lua cheia. Plenilúnio é lua cheia não é?”, “legal, uma puta erudita”, “eu não sou puta”;
“o que você é?”;
“eu faço isso pra pagar minha facú, não sou puta”, “ta bom!”. Ficamos ali por uns quarenta minutos discutindo seriamente se ela era puta ou não. Ela acabou me contando qual era a dela e eu também disse a minha situação. Disse que estou só em Salvador, pois meus pais foram para o interior e não quiseram minha companhia. Contei sobre os livrinhos, etc. Contei tudo. Ela perguntou se eu queria ir até um hotel, almoçar e tomar um banho. Ela ia pagar. Aceitei de boa fé. “Joga a mochila aí”, me disse e continuou “disca nove e pedi um refri pra você”. Recusei e fiquei parado em pé segurando a mochila na mão. Ela me disse “você é tão fofo”. Fofo? Já sei o que vai acontecer aqui! Ela vai dar pra mim porque ela está sentindo alguma espécie de pena de mim. É como se ela quisesse me confortar só porque estou em situação pior que ela e sou um “fofo”. Ela começou a chupar meu pescoço e surgiu um dilema em minha consciência: “se eu a deixar transar comigo porque ela está com dó de mim, é foda (ah, mas hoje vou abrir uma exceção. He, he, he)”. Ela foi logo sacando meu pau pra fora dos trapos que eu chamava de roupa e eu disse: “eu não tenho dinheiro”, ela respondeu: “não estraga o momento, você é legal”. - Legal nas ruas significa que vai ser de graça. Ela sacou uma camisinha de hortelã e mamou gostoso meu pau. Ia e vinha num fluxo envolvente. Literalmente foi foda. Depois de passar o resto da tarde fodendo comigo ela praticamente me expulsou e teve a audácia de perguntar se eu ia escrever sobre ela. “É claro minha linda”, respondi. Ana... Ana?! Esse não é o nome de um romance de ...? Sei lá. Ela se enfiou no chuveiro e joguei um exemplar de: “Sobre tréguas e fugas” sobre a cama e saí. O arrebol dentre prédios não deixa de ser uma paisagem. As almas que vagam não deixam de ter uma história. A angustia jamais vai deixar de me inspirar... Hoje foi o melhor dia da semana. Algumas horas atrás, vendi dez livrinhos para umas “patricinhas descoladas”. Elas até pagaram algumas cervejas para mim. Faz um calor da porra. Lavei as roupas sob o chuveiro deste hotel mal acabado no qual escrevo deitado sobre a cama de molas, onde o pernoite é dez conto. Coloquei as roupas na janela para secar. Ainda estou meio tonto. Uma das intelectuais até me deu seu número de telefone. Vou bater uma lembrando da lente azul de Carla me olhando debaixo e daquele pedaço enorme de rabo. Sobrou um livrinho na mochila. Amanhã vou imprimir mais dez. Hoje foi o melhor dia da semana. Uma das hippie-chic levou dois. Vou tirar as roupas da janela, começou a chuver...
12/05/99