quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Entre o consentâneo e delírios

Emanamos, sim, este aroma lubricamente carnal. Um banquete renascentista pornô sob essências e fragrâncias – o cheiro de foda no ar – de almas alheias. Muitas vezes: uma pele qualquer. Talvez, sim, essa seja a arte do encontro. Do embate entre órgãos e secreções. Fricções e estopins. Ficções e realidades... teatro nô japonês... cinzas de um cigarro proibido... (ou um olhar que se despede mudo). Explodimos, sim, as muralhas da intimidade e suamos ao quebrar tabus imaginários e não criminosos, enquanto banhávamo-nos em um denso lago de pecados e cumplicidade. Um petrus pomerol regando a noite e “the bird” na vitrola. O manjar dos deuses.
22/12/08

Apenas um dia feliz

Hoje foi um dia atípico, o melhor dia da semana. Consegui vender dez exemplares a cinco reais. Cinqüenta reais: apenas notas de um real. cinqüenta notas que deixam minha carteira fuleira com uma protuberância que ela não via há tempos. cinqüenta notas que se avolumavam entre meus dedos, dando a falsa impressão de opulência. A história é sempre a mesma. Apesar de ter nascido, criado e nunca ter morado fora da capital; a história é sempre a mesma. Geralmente procuro bares e lanchonetes freqüentadas por uma corja de estudantes de faculdades que escutam rap em seus carros, leram Karl Marx e acham que são “celebridades”, e um bando de idiotas metidos a intelectuais, assinantes da revista da CULT, que usam a sorte do dia do horóscopo. Scaneio as mesas em busca de garotas brancas e negras de pele boa com aspecto de “descolada”, ou hippie-chic”, ou qualquer imbecil com feições amorfas e sem alma e repito a mesma história: “porra cara, desculpa incomodar vocês. Meu nome é Juan Leon e eu vim de Serrinha pra visitar minha namorada grávida de oito meses. Como os pais dela não me aceitam, eu durmo em hotéis, etc. Mas, resumindo, hoje de tarde fui assaltado e preciso de dinheiro para comprar minha passagem de volta pra casa e como repudio a mendicância, eu vendo para vocês, um livrinho que eu mesmo escrevi e blá, blá, blá. Mostro a capa do meu livro pra eles e geralmente eles perguntam “pô bródê, foi você que escreveu?” e respondo prolongando a história: “foi mano”! Eu trouxe estas amostras, para distribuir em algumas editoras, mas nem deu, porque eu fui roubado e não tenho um real pro buzu. Nesse momento, sempre tem uma vadia estúpida que pergunta: “você é escritor”, eu penso: “que idiota. Acabei de responder que fui eu quem escreveu essa merda e ela me pergunta se sou escritor”, mas apenas respondo: “é o que dizem”. Se o cara não for comprar, ele começa com um papinho de que aprecia toda forma de expressão artística e toda aquela conversinha furada. Quem vai comprar, puxa a carteira e diz: “pô brother, quanto?”. E hoje foi assim. Dei sorte, pois vendi dez livrinhos, logo na primeira abordagem. Uma das garotas comprou dois livrinhos, “só pra me ajudar”. Conheço uma gráfica no centro, que imprime meus livros há 1,05 centavos a unidade. Os donos são gente boa. Um casal. A mulher diz que tenho talento e que é minha fã. O cara diz que exagero nos palavrões e tenho péssima acentuação. Eles cuidam da minha mochila enquanto pago 1.50, pra tomar um banho de quinze minutos, num chuveiro gelado, atrás de um posto de gasolina. No começo da tarde, conheci um senhor que trabalhava de madrugada, fazendo manutenção nos trilhos do metro. Ele não comprou um livrinho, mas me pagou uma coca e um x-sala, pois “eu parecia com seu filho”. O filho dele também tinha um ar de nobreza, mais só vivia junto ao lixo. Durante as tardes, arrecado muito pouco, por culpa de minha aparência: “um garoto forte, bonito, podia arrumar um emprego facinho”. Também porque prezo minha higiene acima de tudo. Quando se vive nas ruas, ou você se torna um andarilho sem nome, ou um peregrino viajante. – eu vivia como peregrino viajante. Após meu x-salada caprichado, fui ate uma banca pra ler a primeira página de todos os jornais. Andei muito. Descolei oito reais, mas odeio pedir dinheiro a transeuntes. Prefiro vender meus livrinhos a noite. É mais gratificante e às vezes bebo cerveja grátis. Parei na sombra de uma praça para descansar o corpo. Retirei a mochila e olhei para o nada, decidindo onde eu venderia os livros à noite. Comprei uma caneta nova e um caderninho de cem folhas de um ambulante ali mesmo na praça. Tive uma idéia estúpida e comecei a escrever utilizando a mochila sobre minha coxa como escrivaninha. Uma prostituta se aproximou, ficou me olhando com desdém e depois de algum tempo disse: “ô, chupetinha?! Dez contos”, respondi: “engraçado, eu ia te perguntar a mesma coisa”. Ela fez uma cara de cu que dizia “vai tomar no cu” e saiu andando. Fiquei admirado pelo poder de tração nas coxas da garota e contemplei sua abrangência traseira ir à direção as suas colegas de trabalho em plena três da tarde. Continuei tentando escrever. Escrevi: “noctifloras vadias sob a luz do plenilúnio, Prazeres inconstantes causadores de infortúnio” E travei. Rabisquei três páginas. Desenhei um urso panda fumando um baseado e nada de idéias para escrever (e meu talento pra desenhista é nulo). Morigerado dentre ambulantes e primas. Pensei em imprimir mais dez livrinhos. Já havia comido e tinha seis reais no bolso. Descolava mais quatro e com o troco comia um dog no centro, mas melhor deixar para amanhã. Ainda tenho oito livrinhos na mochila. A puta voltou e vi que ela era realmente linda (além de gostosa pra caralho).
Ela disse: “o que você tanto escreve?”.
Eu: “to tentando fazer uma poesia urbana, mas travei”, “posso ver”, “ta”. Ela leu umas duas linhas e comentou: “hum, lua cheia”;
Eu: “o que?”, “lua cheia. Plenilúnio é lua cheia não é?”, “legal, uma puta erudita”, “eu não sou puta”;
“o que você é?”;
“eu faço isso pra pagar minha facú, não sou puta”, “ta bom!”. Ficamos ali por uns quarenta minutos discutindo seriamente se ela era puta ou não. Ela acabou me contando qual era a dela e eu também disse a minha situação. Disse que estou só em Salvador, pois meus pais foram para o interior e não quiseram minha companhia. Contei sobre os livrinhos, etc. Contei tudo. Ela perguntou se eu queria ir até um hotel, almoçar e tomar um banho. Ela ia pagar. Aceitei de boa fé. “Joga a mochila aí”, me disse e continuou “disca nove e pedi um refri pra você”. Recusei e fiquei parado em pé segurando a mochila na mão. Ela me disse “você é tão fofo”. Fofo? Já sei o que vai acontecer aqui! Ela vai dar pra mim porque ela está sentindo alguma espécie de pena de mim. É como se ela quisesse me confortar só porque estou em situação pior que ela e sou um “fofo”. Ela começou a chupar meu pescoço e surgiu um dilema em minha consciência: “se eu a deixar transar comigo porque ela está com dó de mim, é foda (ah, mas hoje vou abrir uma exceção. He, he, he)”. Ela foi logo sacando meu pau pra fora dos trapos que eu chamava de roupa e eu disse: “eu não tenho dinheiro”, ela respondeu: “não estraga o momento, você é legal”. - Legal nas ruas significa que vai ser de graça. Ela sacou uma camisinha de hortelã e mamou gostoso meu pau. Ia e vinha num fluxo envolvente. Literalmente foi foda. Depois de passar o resto da tarde fodendo comigo ela praticamente me expulsou e teve a audácia de perguntar se eu ia escrever sobre ela. “É claro minha linda”, respondi. Ana... Ana?! Esse não é o nome de um romance de ...? Sei lá. Ela se enfiou no chuveiro e joguei um exemplar de: “Sobre tréguas e fugas” sobre a cama e saí. O arrebol dentre prédios não deixa de ser uma paisagem. As almas que vagam não deixam de ter uma história. A angustia jamais vai deixar de me inspirar... Hoje foi o melhor dia da semana. Algumas horas atrás, vendi dez livrinhos para umas “patricinhas descoladas”. Elas até pagaram algumas cervejas para mim. Faz um calor da porra. Lavei as roupas sob o chuveiro deste hotel mal acabado no qual escrevo deitado sobre a cama de molas, onde o pernoite é dez conto. Coloquei as roupas na janela para secar. Ainda estou meio tonto. Uma das intelectuais até me deu seu número de telefone. Vou bater uma lembrando da lente azul de Carla me olhando debaixo e daquele pedaço enorme de rabo. Sobrou um livrinho na mochila. Amanhã vou imprimir mais dez. Hoje foi o melhor dia da semana. Uma das hippie-chic levou dois. Vou tirar as roupas da janela, começou a chuver...
12/05/99

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Um dia na vida de Pedro Diogo

by Hilton Leal
Pedro Diogo acordou naquela manhã com a cabeça entorpecida do vinho e o peito estraçalhado pelos sonhos perturbados que sempre lhe perseguiam o sono. O ar abafado de seu quarto e o barulho dos homens bêbados no bar em frente lhe lembraram que se tratava de uma manhã de domingo, sinônimo de bebedeira, encontro familiar e praia para todos, menos para ele que já acordava coma metade do dia encomendado ao patrão. Pedro Diogo foi ao banheiro, tomou banho e escovou os dentes sem nenhum pensamento claro. Na cama da qual se levantara deixou a companheira dormindo languidamente. Após o banho e as necessidades elementares Pedro Diogo esquentou o café e passou manteiga em dois pães dormidos, sem importar-se com o queijo e presunto que tantos podiam ter, nem com a sopa de papelão, única possibilidade para outros tantos.Após terminar sua breve refeição Pedro Diogo sentou-se ao chão de seu minúsculo apartamento de quarta sala banheiro e pôs-se a ler. Não se tratava de um jornal com as notícias do momento, nem de um romance policial, mas de alguns textos acadêmicos que se obrigava a ler imbuído de uma espécie de fé, na esperança de que tais estudos o ajudassem na mudança do tipo de vida que levava.Sua mulher levantou-se e dirigiu-se ao banheiro. O barulho da água caindo ao chão lhe fez lembrar de que não estava sozinho. Acendeu um cigarro, juntou os livros e pôs-se a andar remoendo idéias.- Fumando novamente? – A mulher falou com mal - humor, sua fisionomia carregada expunha sua intenção violenta de tolher-lhe aquela liberdade.- Só um cigarrinho, sabes que não sou viciado.- Sei que não quero tornar-me viúva, nem sua filha quer ficar órfã. – Ela falou com uma expressão que misturava desdém e complacência. Pedro Diogo nada disse.Calou-se, como sempre fazia quando a estreiteza do contexto não satisfazia suas exigências mínimas para uma interlocução digna. Continuou a fumar seu cigarro, enquanto folheava as páginas de um livro qualquer.- O pão acabou – disse-lhe a esposa, e mais não foi preciso. Pedro Diogo ouviu a ordem implícita na observação, ajeitou os poucos cabelos que lhe restavam e lançou-se a rua tumultuada e tomada por pessoas barulhentas, cujas faces variadas lhe davam vertigens. Estas impressões o atingiram e Pedro Diogo tentava alargar sua perspectiva no sentido de abarcar o horizonte e fugir daquele caos de percepções, mas uma linda morena de seios fartos destacou-se da multidão e Pedro Diogo foi reconduzido novamente a si mesmo, agora sedento e energicamente agitado.Pedro Diogo comprou seu pão necessário e retornou ao lar, a patroa já preparava o feijão óbvio. O relógio marcava a proximidade do fatídico momento de dirigir-se ao trabalho. Pedro Diogo foi ao banheiro tomar banho e preparar-se, a água banhou-lhe o rosto com seu toque frio, enquanto ele tentava entregar-se totalmente aquela sensação. Deixando de resistir, acreditava Pedro Diogo, ele deixaria de estar ali. Terminou o banho. Na cama a sua mulher assistia televisão e lixava as unhas. Ele vestiu-se lentamente enquanto observava as imagens que se sucediam na tela. Nenhuma delas lhe dizia respeito. Nem o acidente aéreo, nem o assalto a banco... Nada significava nada. Apenas com seu passado nas mãos Pedro Diogo achava patéticas as vidas alheais. Não se irmanava com os sentimentos alheios, sentia-se atado a si próprio como uma pedra a montanha.Após vestir-se a almoçar Pedro Diogo beijou a esposa com os lábios molhados de medo e ternura e lançou-se novamente as ruas em direção ao trabalho. Andou algumas quadras antes de chegar ao ponto de ônibus. O sol do começo de tarde esquentou sua pele e uma brisa marítima lhe beijou o rosto pasmo.Acima dos edifícios o céu lindo era um mundo inalcançável que Pedro olhava para tentar afugentar o desespero, sem conseguir, todavia.O ônibus lotado o recebeu e ele se acomodou como pôde, tentando evitar o contato físico e psicológico com tantos e quantos o cercavam, até chegar ao seu destino. Chegou ao trabalho cerca de vinte minutos antes da jornada e fumou um cigarro no jardim que dava acesso ao prédio onde funcionava o callcenter. Lançou fora o cigarro e se despediu do céu azul e dos seus sonhos entrando em seguida no salão de atendimento onde centenas de pessoas sentadas em frente aos seus respectivos monitores falavam desesperadamente. Centenas deles, enfileirados, olhando a tela constrangidos. Como um grande tabuleiro de autômatos. Pedro Diogo procurou uma posição de atendimento disponível e se sentou. As ligações começaram.A primeira era de uma senhora que furiosa com o valor da fatura queria cancelar sua linha. A segunda era de um senhor também furioso, mas por que tivera sua linha cancelada sem o seu consentimento. E foram dezenas dessas situações. Algumas mais simples outras mais complicadas. Uma atrás da outra as reclamações iam se sucedendo.O interesse alheio, as idiossincrasias pessoais, as patologias de cada um escoavam pela linha telefônica em direção aos ouvidos de Pedro Diogo que tentava proteger-se em vão trás de uma muralha glacial de objetividade. Depois de três horas nessa maratona insana, na qual ele era avaliado incessantemente através das ligações que atendia, do tempo que demorava em cada uma, do tom de voz que usava, Pedro Diogo olhou aliviado para o marcador digital no monitor, pois atingira seu esperado intervalo para o lanche. Desceu para o pátio em meio à gritaria de tantos com o eco das vozes dos clientes lhe consumindo os pensamentos. Tomou um café quente e fumou um cigarro, sentiu-se melhor, mas passou, teve de voltar o atendimento depois de dez minutos. Para mais cinco horas de atendimento.Centenas de reclamações e problemas depois, sua jornada terminou. Pedro Diogo encerrou os sistemas, pegou a mochila e foi para casa. Mais uma vez esperou no ponto a chegada do coletivo e mais uma vez ficou ouvindo impassível a conversa de seus colegas de trabalho. Ele nada tinha a dizer. Apenas queria seguir vivendo e se possível sem tanta resistência por pare do mundo. Subiu para o ônibus e apesar de levar sempre um livro na mochila resolveu não ler. Ficou calado prestando a atenção em si. Isso costumava fazer bem, mas Pedro Diogo não sabia por quê. Chegou a seu ponto e começou a andar as várias quadras que o separavam do lar. A escuridão se esgueirava pelos becos imundos do subúrbio onde morava. E foi ao passar por um dos becos que Pedro Diogo ouviu uma voz furiosa gritar.- Parado aí, seu filho da puta!Pedro Diogo gelou e ficou parado enquanto dois vultos encapuzados e portando pistolas avançaram sobre ele.- Tira a carteira! Tira a carteira! - O mais alto gritou.Imobilizado pelo medo Pedro Diogo demorou a obedecer e recebeu uma coronhada na cabeça. Caiu no chão como um pacote estúpido e os homens lhe retiraram a carteira, o celular e começaram a lhe chutar as costelas enquanto diziam:- Branquelo de merda. E davam um chute.- Ta gostando de apanhar veadinho? E davam outro chute.No chão com o sangue escorrendo da boca Pedro Diogo pensava que ia ser difícil trabalhar no dia seguinte com as costelas partidas. Foi quando sentiu a coronha fria do revólver na cabeça.- Vai morrer agora, branquelo. Pedro Diogo sentiu uma profunda tristeza, mas ao contrário do que costumam dizer sobre esses momentos não viu sua vida desfilar diante de seus olhos. Apenas lamentou, pois doravante sua filha ficaria sem pai e sua esposa sem marido.Porém, a para sua sorte, a arma falhou com um click seco e os homens correram assustados ao ouvir um carro aproximar-se.Pedro Diogo ergueu-se cambaleante e foi para casa com dor nas costelas e muito preocupado com o dinheiro que iria ser gasto com remédios.

domingo, 26 de outubro de 2008

Uma armadilha para Jonas

Viveu o velho Jonatas uma vida veneravel. Criou os seus filhos da melhor maneira que lhe foi possivel, o que não evitou que um entrasse para ocrime e que a filha mais nova engravidasse de um adolescente malandro e preguiçoso, como muitos que se pode encontrar pelas periferias. O velho Jonatas, ao contrário da maioria dos homens nascidos e criados na favela, nunca procurou ostentar as suas parcas conquistas aos olhos dos vizinhos, e ao contrário de sua mulher nunca se importou muito com o estes pensavam sobre a sua vida. Foi seguindo seu curso de vida muito mais por inercia do que por qualquer tipo de “virtude” (se é que isso existe”) e se viu aos sessenta anos completamente enroscado em uma constragedora situação. A questão é que sua filha precocemente “amaziada” com o vagabundo do seu genro sempre trazia algumas amigas para assitir televisão em sua casa, e como não quizessem criar confronto Jonas e a Mulher não colocaram objeção. Ora, tinha Jonas a impecavel reputação de grande pai de familia, cuja renuncia a uma vida de festas e aventuras teria garantido, por exemplo, que o filho mais velho se formasse Médico e que sua mulher fosse uma especie de simbolo da realização feminina
-olha a constância
diziam os vizinhos ao ver a mulher de Jonas passar com a sacola do pão, altiva e segura
- Isso é que é uma mulher feliz
Foi nesse contexto que Jonas se viu um dia bolinando a amiga da filha por debaixo da mesa onde tomavam café. Era uma Negra linda a clariça. Peitos arrebitados, bunda rechonchuda e um pé de umbigo que provocava dores fortes no peito carcumido do velho Jonas, e ele não segurou a onda. A menina gostou do joguinho. É claro que Jonas sabia que aquilo não era certo. A garota além de ser menor de idade poderia ser sua filha, ou neta. Mas nada disso alterou o curso dos fatos e uma noite, após todos terem ido dormir Jonas foi pé ante pé, ofegante como um porco prestes a ser abatido até chegar ao quarto de hospedes onde dormia a Clariça. A menina bancou que estava dormindo e Jonas sabia que aquilo era parte do jogo não se fazendo de rogado. Levantou a coberta e viu na meia luz aquela bundinha arrebitada desenhada pelo minúsculo short. Tirou a camisa dela e viu os peitos. Duros, com os bicos amarronzados em posição de alerta. Jonas ofegava quase perdendo o folêgo, e ainda nem tinha metido. Tirou o Short da menina , que ainda fingia dormir, e em seguida liberou a pica latejante com a enorme cabeçorra vermelha. A garota tremeu de olhos fechados como se soubesse o que iria acontecer. Jonas colocou a ponta na entrada e foi metendo devagar. A menina convulsionava e tremia, Jonas aumentou o ritmo e enfiou tudo. Ainda de olhos fechados clariça gemeu baixinho:
- Ai ! seu Jonas

Jonas continuou indo bem fundo, na hora exata de gozar tentou tirar a ferramenta para não correr o risco de engravida-la, mais clariça nesse exato momento abriu os olhos e com um risinho satânico exclamou:
- Acha que vai fugir de dentro de mim assim “seu Jonas”.
Naquele instante Jonas compreendeu tudo, e descobriu que estava perdido.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

A velhiçe e o amor


A tarde começava a cair quando isaac levantou-se da poltrona ainda sonolento. Os remédios para reumatismo costumavam lhe deixar com o corpo mole e cabeça pesada. Pegou o livro de contos em cima de mesinha da sala e arrastou as sandalias até o sanitário. era o único lugar apropriado para se fazer uma leitura sossegado.Era um bom livro aquele, mas o autor levava muito a sério coisas banais como a existência de Deus ou a escrotidão feminina. "Todavia parece ser um bom sujeito esse tal de Enzo De marco" Pensou Issac. Terminou as suas necessidades elementares, se limpou e deu a descarga. Na sala a sua senhora também já tinha despertado do cochilo vespertino e preparava o café, a janta ou qualquer outra merda que a fizesse acreditar que era importante enquanto resmungava, reclamava e cantava musicas evangelicas . "Ficar velho é de fato uma das piores drogas que acontecem com o individuo quando ele ainda não resolveu dissolver-se dentro de algum tipo de misticismo". Isaac pensava coisas desse tipo, pois sua cabeça doia e sua senhora tinha acabado de retomar a cantiga sobre as infidelidades da juventude de isaac. Toda tarde, precisamente entre as 15:00 e as 19:00 quando a casa voltava a ser ocupada por outras pessoas, a senhora de isaac retomava a mesma narrativa. Eram traições atrás de traições. Umas reais (mas e daí se ela aceitou e não deu o fora?) outras pura invenção, estas por sua vez, frutos de sua sensação de rejeição, derrota, putrefação, incapacidade e dependência.Essa torrente de lama esculpida e costurada com pedaços de eventos reais tranformava-se miraculosamente em uma aura magnifica de brilho e superioridade moral ao tocar a esposa de isaac. Na dor de sua condição ela elevava-se acima do comum dos mortais, não era somente mais uma fracassada, tornava-se uma martir.
Isaac sabia disso tudo e justamente por isso tinha aprendido a não se ofender. Na verdade não deixava de admitir sua parcela de culpa. Continuar casado com cecilia foi uma escolha reiterada durante anos. Reconhecia também que tinha sido um contrato vantajoso para ambas as partes. Para ele o casamento foi garantia de uma casa sem baratas, comida não apodrecida e sexo de qualidade e para ela... bom se foi mal para ela, foda-se! ela é quem deveria saber se virar e dar um jeito na coisa toda. Cecilia Já tinha sido uma bela mulher. Não linda, é verdade, mas era gostosa. Trepava bem também. E apesar de não ser um gênio não implicava com as loucuras literário-filosóficas dele. Era um tanto ôca, mas dava lugar ao eco da voz narcisista do isaac e ele gostava disso. O único problema é que ela era uma mulher e também queria sua fatia de veneração, uma veneração que no caso dela tinha de vir de outra pessoa. Isaac nunca tivera esse problema e continuava sem tê-lo. Só queria gozar e viver sua vida, o mundo e as pessoas que fizessem o que lhes parecesse melhor. Agora Isaac pensava na morte e em uma trepada gostosa com beijo de lingua, algo absurdo e impossivel em sua idade.
Entrou na cozinha e pegou uma fatia de pão, passou manteiga e levou a bôca enquanto Cecilia gritava e acusava. Sua filha entrou na cozinha beijou seu rosto depois beijou a mãe e saiu. Menina Esperta, ele pensou. Tá cagando e andando para as tramas alheias. "Essa sim vai saber gozar, seguir em frente e ainda se emocionar com o pôr do sol". Depois reconsiderou: "Pai babaca. Tudo é uma merda só."
Isaac foi para o quarto e deitou na cama onde já dera tantas metidas magnificas. Também já gritara de desepero e mêdo em silêncio. Pensou no Buda, no Krishnamurti, grandes sujeitos, tentou meditar. Esvaziou a mente e se sentiu muito bem com isso, dava uma sensação de poder e de força. Os pensamentos voltaram. A imagem de uma mulher que trepara a uns 10 anos flutuou derrepente em sua cabeça. "Cionara, que nome, que Foda". Um beijo tão quente, uma coisa tão triste e tão itensa e... desesperada, mas escapou de suas mãos, como tudo de bom que lhe atravessara o caminho. Isaac se sentiu triste e exitado. Colocou o pau semi ereto para fora e começou a se masturbar. "Ahhh, sim, sim " Ele repetia baixinho fazendo algo de que já se tinha esquecido. A mão se agitou, começou a trabalhar de verdade. Ele voltou ao pasado em uma corrida louca e impossivel. Sentiu o coração doer em uma forte pontada. O pau ficou vermelho e Grande. A dor tornou-se insurpotavel, seu peito estava explodindo. Esporrou como um chafariz, perdendo a consciência junto com o desejo. Caiu de lado sorrindo e morreu.

domingo, 19 de outubro de 2008

Diário de um miché

O sobrevivente dessa vez foi George, um negro de 40 anos, formado em economia. Conheci ele no cinema localizado no centro da cidade, ponto de encontro dos gay da minha cidade, popularmente conhecido por Tupi, meu ponto predileto. No meio sou bastante conhecido. Minha marca principal é o meu pau, isso mesmo, UM PAUZÃO. Todo mundo sabe(poucos conheciam).
Durante aquele mês sai com ele várias vezes, íamos a bares, em geral para conversar, mas também para cama. Nos fins de semana sua libido era mais aflorada - direto para cama -
Ele ligava para mim: e ai? Tudo bem? Sozinho? Posso de pegar ai? Estou indo?
Na transa ele sempre permitia tudo, ou quase tudo, penetração nem pensar. Depois permanecíamos na cama falando de poesia. ele adora poesia. disse-me um dia que eu era um cara diferente, estranho ao padrão, michê convencional, talvez seja por causa da minha obsessão por Lorca:
Quiero llorar porque me da la gana
Como llorar los niños del último banco,
Porque yo no soy un poeta, ni um hombre, ni una hoja,
Pero sí un pulso herido que ronda las cosas del otro lado

Que lindo! Um trago de uísque, um jantar num restaurante bacana, um passeio, fazia de mim um cara especial para meu público. Quando encontrava com George mostrava-me atencioso, tentava transparecer que era um caso, e não só um breve trabalho.
Na ultima vez que o vi, foi a duas semanas atrás, por volta da nove e meia da noite de um sábado na casa dele. o economista me deixou à vontade , ofereceu uísque e conversamos durante algum tempo na sala, até que eu sugeri que fossemos para o quarto, ligou a tv e relaxou, antevendo o que parecia ser o próximo passo da noite - o ato sexual. estadeei diante do seu rosto minha principal marca, a mais conhecida da freguesia- meu lauto PAU. nesse momento o abracei por trás e enviei uma par de meias na boca dele, depois disso tentei furar ele com uma pequena faca. o pavor de George foi tanto que evacuou uma coisa aguada, um jato, no meu pé. assustado, minha faca caiu, partir pra cima dele, tentando imobiliza-lo e enfiar mais meias na boca dele. aí o desgraçado pegou meu saco e torceu com forca até eu cai no chão, contorcendo de dor, enquanto ele escapava em direção da janela. no meu desespero corri para a porta, que estava entreaberta, e fugi nu. o coitado do George sentou-se no parapeito da janela e começou a gritar, loucamente, pedindo socorro. seu grito foi tão estridente que o porteiro chamou a atenção de George, dizendo que não devia gritar daquele jeito no condomínio.
Sai correndo para a rua, pelado e escorrendo merda e sangue.
Dois meses depois fui chamado à delegacia de policia para prestar depoimento, pois, minhas roupas ficaram no local do crime, com meus documentos e uma conta de cobrança, também tinha uma ficha com anotações de consulta medicas no setor de psicologia da ufba.
depois de idas e vindas à delegacia, tudo correu bem. o pobre George cansou de ouvir ironias e insinuações a respeito de sua vida sexual e desistiu do inquérito policial.
Eu, ainda freqüento aquele local, vez por outra esbarro com George, que traz no meio das costas uma cicatriz arredondada, saltada, do tipo quelóide, lembrando daquele sábado inesquecível...eu nunca cometo pequenos erros, quando posso causar terremotos.
02/02/98

És o começo

enfim eis minha primeira entrega literária! Mesmo que circunstâncias históricas possam deslegitimar o meu afã de buscar o mais e o melhor (estou aqui !). Mesmo que as consciências pesadas e vagarosas ergam barricadas contra a caudalosa corrente de palavras nuas que doravante irão jorrar sobre as cabeças iluminadas. A caixa de Pandora foi aberta e só o acaso terá poder de fecha-la e, certamente, lá já não restará nem mesmo a enganosa esperança, deixemo-la para os francos negadores do agora. A desconstrução das crenças, a interrogação sobre a certeza, a desconsideração de qualquer critério jesuítico de utilidade ou principio. O avante deve ser o único critério, o ácido nosso meio comum e o desvelamento do embuste ordinário das sub almas o principal propósito. A tarefa não é original, muitos já o fazem, pois, apenas juntarei minha voz ao eco dessas vozes.

sábado, 18 de outubro de 2008

Educação e o jogo.

O debate sobre a educação se insere em um debate maior que se desenvolve, me parece, no interior do iluminismo Europeu. Nossas preocupações com a educação foram herdadas da tradição liberal Európeia e como tais, trazem consigo os mesmos vicios e virtudes. Seria pedante da minha parte trazer a tona todas as minuncias desse debate cujas principais nuances podem ser dectadas em pensadores como Nietzsche, Paulo Freire, Dewey ou Mesmo Richard Rorty. Consiste a preocupação com a educação uma das facetas mais complexas da cultura liberal por dois motivos:
1- Nessa preocupação instalou-se o anseio cristão por "melhorar os Homens"
2- Na educação também reside o anseio por tornar os Homens capazes de decidir "livremente" seus destinos.
A respeito do primeiro tópico não é preciso dizer que o anseio por melhorar o mundo, conquanto antigo, já justificou coisas que não o melhoraram em absoluto (e ademais, como diria Espinoza, "O que é certo de um lado dos Pirineus é errado do outro")ou seja não possuimos fundamentos que justifiquem colocar a educação "acima"(em sentido moral) de outros procedimentos de treinamento social. Com relação ao segundo tópico, não parece contraditória a sentença "ensinar a ser livre"? uma vez que a liberdade seria algo pessoal e em primeira pessoa? ou então, a liberdade não é qualquer liberdade, e liberdade do individuo concreto, mas antes, liberdade do individuo idealizado e "purificado" das impurezas de sua alienação. A libertação das cadeias do dêmonio, diria mais sinceramente um pastor.
NA verdade os tópicos que levantei a guiza de critica a idealização da educação perpetrada pelo marxismo ( e pelo cristianimo também) não pretendem desqualificar a educação, mas apenas inseri-la entre as outras atividades humanas, para caracteriza-la, finalmente, como um campo de indeterminação e incerteza na qual todas as possibilidades e ferramentas de uma cultura poderiam ser jogadas, mas, como em todo jogo, sem supor qualquer necessidade nos resultados dessa aposta.

Contigência !

Dentre as perspectivas que a filosofia contemporânea nos indica, considero aquela que toma como ponto a contingência uma das mais relevantes. Anatematizada por filósofos como Platão que viam na estabilidade e na certeza o fulcro de todos os valores a contingência assumiu uma posição de nobreza na era pós nitzscheana, mas o impacto dessa mudança não chegou a libertar o nosso vocabulário dos vícios que as narrativas construídas por Platão e outros essencialistas nos legaram. Contudo, áreas de atividade como a pedagogia, por exemplo, viram-se pressionadas pelos setores mais vanguardistas da sociedade a assimilar o vocabulário anti-essencialista e adotá-lo as idiossincrasias de seus próprios propósitos. Nesse sentido, a contingência passou a dividir o reino dos céus com a essência e os “relativistas” e “socio-construtivistas” passaram a utilizar-se do vocabulário da contingência da mesma forma e com os mesmos propósitos que os essencialistas utilizavam-se do vocabulário da essência. Creio que seja bem difícil que certas funções sociais prescindam de um vocabulário sobre “como as coisas são”, por questões de vicio cultural e talvez devido a aspectos da referida função. Todavia, prefiro apostar na contingência de uma perspectiva não reflexiva como uma possibilidade de dar a essas áreas de atuação um toque de dinamismo e de deflação vantajosos para uma cultura como a nossa. Nesse sentido consideraria mais útil aplicar a palavra contingência no sentido de que “tudo que dizemos tem referência aos nossos atos” ou como Pierce “o sentido de uma frase são as ações que ela viabiliza”. Assimilada a cultura, depois de recorrentes utilizações, ninguém sabe que tipo de sociedade esse vocabulário poderia criar. Assumir esse “não saber”, para fazer os ajustes indispensáveis a posteriori é o que chamo de uma perspectiva contingencial