sábado, 4 de abril de 2009

Relatórios das sombras

Eram doze homens capazes e durões que, dia após dia, lidavam com um tarefa extremamente arriscada nos lugares mais perigosos de Salvador. Ninguém sobreviveria naquele trabalho se não fosse realmente bom, e aqueles homens eram muito bons no que faziam. Era meu primeiro dia na unidade, me apresentei a todos, já conhecia alguns, o Brandão e os irmãos Silva e enquanto cumprimentava cada homem, percebi que estava em boa companhia. O oficial que estava a frente era De Paula e tinha dois sargentos o Cunha e o Delmo, eram tão diferentes quanto dois levantinos podem ser. Cunha tinha altura mediana e físico de jogador de futebol, tinha voz grave e normalmente a usava como arma, fora isso, era do tipo intelectual, ouvia Mahler, aparência europea, de português impecável. Delmo parecia um beduíno, esguio e com um senso de humor sarcástico, extravagante, mas tinha também um inegável senso de autoridade e a palavra final sempre era dele, quaisquer que fossem as circunstancias ou situação, também possuía um sexto sentido infalível e quando cheirava encrenca, ela estava bem próxima. Eu, Ruan, Gomes e Delmo, o dream time estava formado, a guarnição fechava. Gomes, o motorista, famoso com a rapaziada da antiga, old school, segundo qualquer padrão era um individuo sincero, seu trabalho era encontrar os melhores e mais seguros trajetos dentro das favelas que invadíamos, e nisso era mestre. Se tivesse em São Paulo durante os anos 70, teria se tornado um ídolo da pornochanchada, era a versão desbotada e musculosa de David Cardoso. Vivia num quarto e sala em Cosme de Farias, no qual escrevia poesia ate tarde da noite quando estava de folga, para as mulheres que conhecia em serviço. Era tão persistente quanto prolífico. Ruan era o mais jovem da guarnição, mas demonstrava maturidade excepcional, de longe o mais inteligente de nos, tinha um físico perfeito, olhos desconcertantes de cor âmbar, como um leão. Era da liberdade, um lugar que era necessário uma certa maleabilidade para sobreviver, ele ensinou-me a sempre levar nas missões um drops de menta forte, sempre que o cheiro nauseante dos guetos ficasse insuportável, colocava um na boca e quebrava outro nas mãos e o aroma forte afugentaria o mau cheiro de morte por algum tempo...(continuação)

Um comentário:

Rafael Medeiros disse...

Um desfile de magníficos Mefistófeles!!!