sexta-feira, 1 de maio de 2009

Dois lados.

OS vencedores tem músculos de bronze
Reluzindo ao sol poente
Com um Deus elevando-se sobre seus passos
Radiante brancura e zombante sorriso
Até a meta final.

Vencedores tem um nome a zelar,
Precisam de lindas mulheres para ostentar
Em vitrinas
ou de carros brilhantes para consumar
seu orgasmo.
Vencedores possuem, agarram, rasgam, batem o pé
Telefonam para o tio da policia,
Ou para o paizão empresário,
Estão nos sonhos de suas mães
Na contracapa da vida contada em salões
Míticos de devastadores boatos.
Vencedores vivem em um palco do filme que foi
Feito para eles.
Vencedores comparam-se, medem-se, maldizem a expressão menor
E só aceitam o sucesso.
Vencedores se não envelhecem cercados por mulheres gananciosas
Enfiam uma bala na cabeça como recurso final
De impotência.

Fracassados se olham com olhos de opera
Contam canções de lirismo quando desce a cortina
Amam como quem recebe uma esmola
e aceitam a migalha que lhes
Cai sobre os pés em confirmação ao pressagio.
Fracassados geralmente encontram na virtude um argumento
E na história uma desculpa.
Fracassados são incapazes de elaborar uma dança,
O NÃO está em seus lábios e seus olhares são a pretensão
Que se esquiva
Para os banheiros out-sideres onde difamam o anfitrião
Que lhes impôs um convite.
Fracassados são preguiçosos e impopulares,
Cultivam suas dores ou se escondem delas
Em bueiros de palavras confusas.
Fracassados chegam sempre ao final
Com as mãos cheias de fábulas
Fracassados geralmente acabam cedendo a alguma forma de
Igreja,
tombando como cepos dementes em poças de sangue ou
esvaindo-se em loucura e veneno enquanto consideram a nobreza.

By Hilton Leal

sábado, 4 de abril de 2009

Relatórios das sombras

Eram doze homens capazes e durões que, dia após dia, lidavam com um tarefa extremamente arriscada nos lugares mais perigosos de Salvador. Ninguém sobreviveria naquele trabalho se não fosse realmente bom, e aqueles homens eram muito bons no que faziam. Era meu primeiro dia na unidade, me apresentei a todos, já conhecia alguns, o Brandão e os irmãos Silva e enquanto cumprimentava cada homem, percebi que estava em boa companhia. O oficial que estava a frente era De Paula e tinha dois sargentos o Cunha e o Delmo, eram tão diferentes quanto dois levantinos podem ser. Cunha tinha altura mediana e físico de jogador de futebol, tinha voz grave e normalmente a usava como arma, fora isso, era do tipo intelectual, ouvia Mahler, aparência europea, de português impecável. Delmo parecia um beduíno, esguio e com um senso de humor sarcástico, extravagante, mas tinha também um inegável senso de autoridade e a palavra final sempre era dele, quaisquer que fossem as circunstancias ou situação, também possuía um sexto sentido infalível e quando cheirava encrenca, ela estava bem próxima. Eu, Ruan, Gomes e Delmo, o dream time estava formado, a guarnição fechava. Gomes, o motorista, famoso com a rapaziada da antiga, old school, segundo qualquer padrão era um individuo sincero, seu trabalho era encontrar os melhores e mais seguros trajetos dentro das favelas que invadíamos, e nisso era mestre. Se tivesse em São Paulo durante os anos 70, teria se tornado um ídolo da pornochanchada, era a versão desbotada e musculosa de David Cardoso. Vivia num quarto e sala em Cosme de Farias, no qual escrevia poesia ate tarde da noite quando estava de folga, para as mulheres que conhecia em serviço. Era tão persistente quanto prolífico. Ruan era o mais jovem da guarnição, mas demonstrava maturidade excepcional, de longe o mais inteligente de nos, tinha um físico perfeito, olhos desconcertantes de cor âmbar, como um leão. Era da liberdade, um lugar que era necessário uma certa maleabilidade para sobreviver, ele ensinou-me a sempre levar nas missões um drops de menta forte, sempre que o cheiro nauseante dos guetos ficasse insuportável, colocava um na boca e quebrava outro nas mãos e o aroma forte afugentaria o mau cheiro de morte por algum tempo...(continuação)

sábado, 14 de fevereiro de 2009

"Um homem pode ser destruído, mas não derrotado."
hemingway "O velho e o mar"

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Todo o meu amor foi em vão

“All my love's in vain”. Essa frase, me alcançou como um tiro de M-16. Bem no meio da testa. E inebriou minha mente pelo resto de mais uma noite demoníaca, reluzente e soturna. Mais uma consternada noite que perdi de viver, pois estava preocupado demais em esquivar-me dos uppers, ganchos e jabs, que minha maldita consciência tentava acertar. Bem no meio da minha linda face. Com a força de um Mike Tyson, possesso de ódio mortal por mim. Esses meus litúrgicos embates, travam-se em rings sem gongo para salvar a pele ou toalhas para se jogar. E a única maneira de vencer... é com a morte, ou a completa covardia de alguém, E que vença (...).
“All my love's in vain”, era o que dizia a letra gritada por um Bluesman estranho, num inverossímil microfone que cantava o pus dos ferimentos de um coração. Ferimentos escondidos atrás de um gesto simples de tocar de costas para plateia. Culpa de uma alma gangrenada. Alguém que jamais chegou. Alguém que jamais voltará. E como diria hilton: “Eu não sou um escritor” “Eu sou um lutador de boxe!”. Noite tardia. Lúgubre e soturna. Acho um milagre, achar alguma louca que compartilhe pedras comigo, para quebrar os vidros de um galpão abandonado, aos ratos. Uma louca que cure minha gangrena com a língua. Que enfie meu sol sem brilho na tomada e faça o porão resplandecer com a sua singela presença. Que ofenda minha retina. Que me ligue e diga "iai, colé mermo!". “All my love's in vain”, mas, será que o meu amor vale alguma merda? Com certeza, (acho que) não... Eu. Que sou animalescamente inocente, a ponto de dizer que, passei a vida toda crendo na metafísica Schopenhaueriana e nos aforismo sem sentido de Nietzsche e, o máximo que encontrei, foi um traveco na Pituba, que me cobrou vinte reais e uma carona para o Nordeste de Amaralina, por uma felação pessimamente mal feita. No meu Gol, 1.0, duas portas, cinza. E não me fez gozar... Minha vida não vale uma romance. Mas a sua – se é que você está por ai –, faz a minha, valer ao menos... deixa para lá. Porém, na tentativa de não mentir para mim, digo: não é bem amor que procuro. Pois, bem. Como uma seta venenosa saída de uma zarapatana cortando minha alma. Nem minha família me ama. Todavia é fato: o instante acaba, e meu cancro ainda doí, mas não vou maldize-lo ou me lamentar, até o dia em que eu vá perguntar ao Sr Fante, “onde andará Camila?”.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Entre o consentâneo e delírios

Emanamos, sim, este aroma lubricamente carnal. Um banquete renascentista pornô sob essências e fragrâncias – o cheiro de foda no ar – de almas alheias. Muitas vezes: uma pele qualquer. Talvez, sim, essa seja a arte do encontro. Do embate entre órgãos e secreções. Fricções e estopins. Ficções e realidades... teatro nô japonês... cinzas de um cigarro proibido... (ou um olhar que se despede mudo). Explodimos, sim, as muralhas da intimidade e suamos ao quebrar tabus imaginários e não criminosos, enquanto banhávamo-nos em um denso lago de pecados e cumplicidade. Um petrus pomerol regando a noite e “the bird” na vitrola. O manjar dos deuses.
22/12/08